quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A carreira do amor

Cheguei à paragem de autocarro e faltavam 2 minutos, daqueles bem generosos, como só a carris nos sabe presentear e que se multiplicam numa dimensão de tempo bem diferente da que habitamos. Apesar de tudo, estava tudo bem.
A cidade tranquila, o sol a querer espreitar e no banco da paragem um homem e uma mulher, aparentando ambos, muita história de vida, sentados impacientemente como quem finta o inimigo: o horizonte que não revela o transporte ansiado.

Ela, com o seu corpo moldado à idade, um tufo de algodão branco sob um pesado gorro e um sorriso, que arrisco dizer, centenário.
Ele, que apesar de aparentar também uma longa história, revelava ter tido de lutar menos com o tempo.
Olharam um para o outro e em silêncio lamentaram a espera.
Com cumplicidade, pensei eu, de tanta partilha, que apenas o olhar basta para que tudo se revele.

Quando o tão esperado carro chegou, ele, num apoio condicional, ajudou-a no degrau, firmando a sua mão no cotovelo dela. Conduziu-a até ao assento, e sentou-se frente a frente.

E eu, encaminhei-me para a segunda metade do articulado envolta na minha mente agitada.
E assim teria continuado, se algo não me tivesse chamado a atenção.

Numa paragem, ele levanta-se, apoia-a e conduz o seu caminho até ao degrau, até ao degrau do passeio ali ao lado, e regressa à carreira, sem trocarem longas palavras além do tímido agradecimento.

"Oh!" exclamei em pensamento enquanto o meu corpo se colocou direito no banco. Afinal não estavam juntos nos laços que eu determinara.
E tamanha empatia provinha de uma qualquer outra história em comum: os longos anos de vida, as ruas de uma cidade, as vivências de uma história social comum, uma geografia, ou tantas outras possibilidades.

O meu sorriso alargou-se com toda a elástica energia, e no peito senti um agradável arrepio, que se transformou numa alegria infindável.

Ainda existem verdadeiros seres humanos por aí.
Aqueles que ajudam um transeunte pesado a atravessar a estrada,
Aqueles que despem o casaco que os aquece e partilham ao sem abrigo o seu agasalho,
Aqueles que abdicam do seu lanche da jornada laborar e oferecem ao pedinte no metro,
Aqueles que sorriem a alguém que foi abordado por um passageiro mal disposto no elevador,
Aqueles que se levantam no autocarro para ajudar outro ser a seguir o seu caminho.

E se isto não é amor... o que será?

Com amor,
Judite





terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Bom dia Sr. Valentim!

Num dia onde se aprumam todos os ditos cavalheiros de nomes avelentinados, e as suas valentinas que esperam em formato qual dama ou donzela, qual romance exuberado, pelo agradar do seu amado,
Numa trama de Romeu e Julieta, no romande das rosas e aromas de chocolate, as luzes da resposta sabida ilumina o palco.

Mas eu questiono: quanto vivemos nós em real amor? E o que é o amor que este dia se diz festejar?

Viajo no meu dia a dia sob o olhar atento aos vividos em amor, e almejo alcançar a compreensão do que o ser humano realmente percebe sobre este tema.

Conheço muitos solteiros enamorados e muitos casados desalmados numa rotina que nem questiona o amor. E a ambos pergunto: será que é amor?
Talvez seja, e será de certo, ao olhar de cada um, a sua forma de amar.

Para mim amor significa respeito e liberdade: em nós próprios.
Porque para mim o amor começa no "1" e não no "2".
Porque para mim amar significa um profundo conhecimento sobre nós, antes de qualquer pretensão de se dar ao outro.
Porque para mim nenhum amor é completo se quem o sente não o sentir dessa forma.
E as peças juntam-se apenas em cada um de nós. E depois, embelezam-se e partilham-se em dávidas de amar o outro, os outros.

Porque amar começa no "1" e termina no infinito. Não tem de ter razão nem regras. Apenas coragem de deixar partir de si ao mundo.

Porque para mim o amor não tem uma forma nem fórmula. Porque o amor tem cores que a visão não alcança. E porque na sua imensidão e profundidade pode ser tão leve que partilhado através da brisa, mundo fora.

Porque para mim amar não é ficar. É saber quando estar e quando partir. Quando dar e quando recusar. É olhar com franqueza e a coragem de se ter de dizer "adeus" para que o seu significado seja mais que isso, seja vida, e possa ter toda a sua plenitude no destino que lhe damos.

Porque amar significa deixar partir o melhor de nós de dentro do nosso coração ao mundo que nos rodeia. Seja qual e quem o vá receber de todas as formas que possamos partilhar.

Que este dia "do amor", vá além dos galantes Valentins e passe com harmonia nas almas que se permitam realmente viver em amor.
O do outro. Seja quem for.

Com amor,
Judite